quarta-feira, 14 de agosto de 2024

'A gente pode e deve falar sobre câncer com as crianças', diz mãe que escreveu livro para contar seu diagnóstico para o filho 

Fernanda Rosito, de 46 anos, publicou 'O suquinho da mamãe' para explicar seu tratamento 

Por Mariana Rosário — São Paulo

Foto: Divulgação

Foi pouco tempo depois de ter o primeiro filho que a autora e palestrante Fernanda Rosito, de 46 anos, descobriu o diagnóstico de câncer de mama. Jovem, com 39 anos, a chegada da doença foi um baque para a família que tinha acabado de aumentar (o marido dela, Luciano, já tinha outro filho, Samuel, que faz parte da rotina do casal). Após o primeiro tumor, outros pontos da doença nos ossos e no fígado também foram identificados. Com o tratamento, a doença entrou em remissão, mas Fernanda ainda lida com a quimioterapia para concluir os ciclos de aplicações. Em meio às dificuldades dos cuidados de saúde, Fernanda observava o crescimento do filho que demandava por sua presença e energia — por vezes abaladas pelos efeitos colaterais da medicação.

Ao ouvir que o menino, hoje com 8 anos, a achava preguiçosa por não ter ânimo para acompanhá-lo, Fernanda decidiu agir: escreveu um livro em que um garotinho, que representa a história de seu filho, descobre que a mãe teve câncer. Ali, conceitos difíceis são simplificados para que a mensagem chegue aos meninos e meninas sem assustar. O tumor torna-se uma bolinha e a quimioterapia um “suquinho”. A história, intitulada “O suquinho da mamãe” (Editora Giostri Cultural) ajudou a unir mãe e filho, que tornaram-se mais unidos com a publicação. “Me libertei”, diz Fernanda. Veja os principais trechos da entrevista.

Fui diagnosticada com câncer de mama em 2018, quando meu filho Enzo tinha 1 ano e 8 meses. Foi o período mais difícil, com a quimioterapia mais forte, perdi cabelos, sobrancelhas e cílios, tudo. De lá pra cá tive sete outros focos, sendo 2022 uma recidiva, que é quando o câncer volta ao mesmo lugar, no meu caso nas mamas. Esse ponto foi crucial, pois foi quando tive medo de não resistir. Mas esse pensamento durou só um dia. Fiz um movimento para resgatar minha fé, minha espiritualidade. Recebi uma mensagem de Deus de que deveria escrever um livro para meu filho.

Sim, alguns dias antes o Enzo tinha dito que eu era preguiçosa pois só queria dormir e não queria brincar com ele. Afinal, eu fazia químio há muito tempo e ela dá mesmo cansaço e sonolência. Quando ele disse isso, achei que não era justo com nenhum de nós que ele passasse por esse sentimento.

Eu não disse nada. Pois era exatamente o que ele via, né? Por vezes ele saia com o pai para ir à praia ou algo assim e eu dizia: "Não vou, estou cansada". Para uma criança de 6 anos, essa imagem (de que estava com preguiça) é que ela teria mesmo.

Ele é o narrador do livro, na verdade. Na história ele faz um personagem que descobre que a mãe tem câncer. Trago isso de forma lúdica. E as ilustrações são inspiradas em fotos da nossa família. Com o tumor faço uma analogia, digo que ele é uma “bolinha”. Quis explicar tudo porque quando a gente não conhece uma coisa, não entende, ficamos com medo. Não podemos ter receio de falar sobre o câncer porque a doença tá aí e pode acontecer com qualquer um de nós. Acho agora que a gente pode e deve falar sobre câncer com as crianças, de uma maneira que elas possam entender.

Todos nós temos uma força que só descobrimos quando a gente precisa acioná-la. Quando descobri meu câncer, meu marido dizia sempre “Não pense besteira”. E eu respondia: “Não vou pensar, não vou morrer”. Você não imagina o quanto meu filho me deu forças, é por isso que ele é o narrador da história do livro. E, por ser uma publicação infantil, eu achei que seria bacana partir das sensações dele e para falar com outra criança dentro da sua própria linguagem. Ao escrever, sabia quais eram as percepções dele. E, quando ele leu o livro, achou a história realista. E eu disse a ele: “Sim, filho, somos nós”. Agora digo para ele que vou fazer “o suquinho” nos momentos da químio e ele entende.

Eles têm medo, claro, de ficar sem mãe. E às vezes escondemos (o diagnóstico) para protegê-los, não deixá-los inseguros. Na verdade, temos medo que eles tenham receio de nos perder. Outra questão que ouço muito as mães falarem é sobre como lidar com a perda de cabelo, como comunicar essa mudança. O livro ajuda a contar, sei até de um caso de uma mãe que foi fazer uma cirurgia, que nem era relacionada ao câncer, e usou o livro. Mas existe um limbo relacionado à idade, quando comecei o tratamento ele tinha só 1 ano e 8 meses e ele não entenderia mesmo, mas com 4, 5 ou 6 anos já dá para sentar e conversar um pouco mais.

Foi um divisor de águas. Não minto mais sobre onde estou, quando faço a químio, não minto mais sobre como me sinto. Antes eu precisava dizer que não estava bem porque tinha comido algo que não caiu legal. E ele queria saber detalhes, e eu tinha que mentir mais. As crianças entendem o que elas veem e o que elas ouvem, então foi importante poder falar. Acho que o livro fez mais bem para mim do que para ele até. Foi libertador.

fonte:https://extra.globo.com/

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